Atridas - O Homem Morto na Banheira
Espetáculo recria tragédia de Agamêmnon com encenação contemporânea
Foto Antonnione Franco
Ao ler no título da peça o nome da família “Átridas”, algum
bom conhecedor do teatro grego pode esperar encontrar em cena personagens e acontecimentos
anteriores ao retorno de Agamêmnon à Grécia após vencer a guerra de Troia.
Como, por exemplo, a maldição de Mírtilo a Pêlops antes deste se tornar o rei
do Peloponeso; ou ainda da disputa de Atreu e Tiestes, filhos de Pêlops, pelo
trono de Micenas, episódio onde Tiestes seduz a mulher de Atreu e rouba-lhe o carneiro
de lã de ouro que, de acordo com os deuses, lhe garantiria o trono. Mas nada
disso acontece. Em “Átridas – O Homem Morto na Banheira” Atreu e Tiestes estão
apenas no diálogo de seus respectivos filhos Agamêmnon e Egisto, e só.
Ansiedades e desejos pessoais à parte, a escolha da produção
é trazer à cena uma boa adaptação inspirada no texto “Agamemnone”, do italiano Vittório
Alfieri, focando a estória no retorno do Rei Agamêmnon, talvez o nome mais
famoso da linhagem dos Átridas. Depois de liderar a vitória da Grécia sobre
Troia, Agamêmnon retorna ao seu palácio em Argos para ser vítima de traição e
morte pelas mãos de sua esposa Clitemnestra e seu arquirrival Egisto, filho de
Tiestes, que aproveitou a ausência do Rei para tornar-se amante de sua esposa.
A escolha parece acertada à medida que o espetáculo consegue desenvolver melhor
a trama entre o retorno de Agamêmnon e o momento de sua morte, diferenciando-se
do texto “Agamêmnon” de Ésquilo, e tornando a peça mais acessível ao publico.
Mas o que “Átridas – O Homem Morto na Banheira” tem de
melhor é a encenação. Esta parece ter correspondência com a pesquisa realizada
em outra montagem do Trupe de Teatro e Pesquisa intitulada “O Poema do Concreto
Armado”. Na ocasião, a exemplo da montagem atual, o grupo também se valia da
utilização de televisores e da ressignificação de um espaço alternativo
multiuso. Desta vez, o cenário, cujo destaque é uma belíssima banheira que
permeia a peça como o local onde Agamêmnon foi e será morto, abriga dois
televisores. As imagens utilizadas nos vídeos são referências, ora concretas
ora abstratas, ao que se passa na cena. Podemos identificar, por exemplo,
imagens do filme clássico “Iphigênia”, quando a mesma é citada pela rainha, ou
ainda da cantora e compositora Amy Winehouse quando Egisto, encarnando o
fantasma de seu pai, canta a música “Back to Black”, da falecida popstar, cuja
letra tem clara correspondência ao retorno de Tiestes para a escuridão e o fato
de que a maldição de Mírtilo não morrerá, ou morrerá cem vezes e retornará.
Fazendo jus ao nome do grupo, a pesquisa é um elemento
onipresente. Trabalhando de forma semiótica, a peça manipula tantos signos que
é até difícil acompanhar. Na adaptação proposta ao texto é possível
identificar, entre outras inserções, o poema dramático “Agamêmnon”, de Sêneca,
o poema em prosa “Clitemnestra ou o crime”, de Marguerite Yourcenar, ou ainda
trechos de“Hamlet Máquina”, do dramaturgo alemão contemporâneo Heiner Müller,
inteligentemente transferido para a boca de Electra. Nas imagens, como havia
citado, coabitam ícones clássicos e contemporâneos.
Na trilha sonora músicas de vertente techno e eletro em
diálogo com canções cantadas pelos atores, reeditando, por exemplo, Lupicínio Rodrigues
e outros temas em francês, inglês e indiano. Tal empreitada já não é tão bem
executada já que é perceptível que alguns atores estão mais bem preparados para
o canto do que outros, mas que, enquanto escolha, vale pela ousadia e profusão
de signos compartilhados com as imagens.
Curiosamente parece ser uma escolha da direção orientar a
interpretação dos atores, colando-lhes uma voz impostada, buscando algo que
talvez se aproxime da imagem construída pelo mundo moderno da maneira como se devia
fazer uma tragédia grega. A proposta incomoda inicialmente, mas, à medida que a
entendemos e assimilamos, ela vai perdendo o estranhamento distanciado que
gerava nos primeiros minutos e podemos até experienciar a catarse de uma
história trágica. Entre os atores o destaque é Jader Corrêa que se mostra à
vontade como o vilão Egisto que por vezes encarna o fantasma de seu pai. A
transição entre esses dois personagens é o ponto alto de interpretação da peça.
Yuri Simon e Pauline Braga também dão conta dos personagens centrais de
Agamêmnon e Clitemnestra. Quem parece um tanto exagerada é Alice Corrêa que
apoia sua construção de Electra em tensões faciais e vocais pouco críveis.
O figurino é mais um ponto onde a escolha é radical, mas que
não atinge a mesma força dos outros elementos. Trata-se de uma clara
apropriação oriental, de quimonos e calças largas, que buscam diálogo com o
bastão de Aikidô utilizado para as cenas de luta. Embora funcione pontualmente principalmente
aos homens, no todo parece perder em coerência, evocando pouco o brio de
nobreza e feminilidade da rainha e sua filha.
“Átridas – o homem morto na banheira” tem o mérito de
realizar apropriada intersecção entre o clássico e o contemporâneo com a competência
de um grupo que completa 20 anos. Distinguindo-se pelo comprometimento com a
pesquisa conceitual e estética, o grupo lança mão de recursos audiovisuais para
apresentar uma tragédia com nova roupagem, sofisticando e enriquecendo o mito
sem para isso torná-lo hermético.
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